História da congregação em Portugal

ESTOU CONTIGO

(Texto elaborado por Susana Rosado em 2011 aquando a celebração dos 75 anos das Irmãs Adoradoras em Portugal) 

“Ni viva ni muerta quiero que falte nada a ninguna de mis hijas, que yo amo con todo mi corazón…” (Santa Maria Micaela)

Nada acontece ao acaso…Nem eu nasci por acaso…Nem me chamo Micaela por acaso…É preciso abrir os olhos para poder ver e é preciso abrir o coração para receber os sinais que estão no nosso caminho e depois, somos livres de escolher…E por mais que achemos que não é para nós, de uma forma ou de outra, num tempo ou noutro, acontece…Convictos na providência, deixar que a fé nos transforme e nos fortaleça, erguendo-nos muitas vezes das cinzas, fazendo do nada alguma coisa que, para aqueles de quem se cuida, é muitas vezes tudo… E o TUDO… É ESTAR CONTIGO… Estar contigo há 170 anos atrás, quando te encontrei na cama do Hospital… Estar contigo quando abandonei a riqueza e mesmo não entendendo no primeiro momento te segui…Estar contigo, porque de ti todos fogem menos aqueles que te usam… E mais rápido do que o tempo, o estar contigo passou a ser a estar contigo e contigo e contigo, ou seja, convosco… Mas ainda que fosse apenas contigo, teria valido a pena…Ao dar a minha vida por ti, dei a possibilidade de poder dar a vida a muitas outras. O AMOR que partilhei contigo, continua a ser partilhado, não só por aquelas que me seguiram e continuam a seguir, como por aquelas a quem o meu AMOR toca e transforma. Porque continuo contigo…Porque o Amor se multiplica…Fugindo da Guerra em Espanha há 75 anos, encontrámos um porto seguro em Portugal, onde sobreviventes juntaram a força da esperança e com a receita do amor construímos as pontes possíveis para estar contigo. O meu Amor, a sua providência e a nossa Fé…Continuaram a pôr as casas de pé…

1936… Cruzámos a fronteira à procura de um refúgio para pôr a salvo aquelas que seriam a semente, para uma nova brisa de esperança, que vai soprando cada vez mais forte e nos faz levantar, persistir e continuar…BRAGA, berço do 1º Sacrário a ser celebrado e adorado em terras lusitanas. Tempos conturbados pela precariedade de recursos…Tempos difíceis, de busca por um espaço mais digno para acolher todas aquelas a quem a vida retirou a possibilidade de viverem numa família pequena, protetora e originalmente sua. Mas pelo facto de nunca vos ter abandonado, de estar todos os dias nos vossos corações, de continuar a estar contigo, contigo e contigo…A família cresceu e foi crescendo cada vez mais…, com ela o AMOR, mas também as dificuldades. Mas são estes os momentos onde a fé nos fortalece e nos faz olhar para aquilo que cada um pode ser e dar. E foram nestes tempos em que os dons de cada uma se tornaram doces, que fizeram as delícias de muitos, onde tecidos, ouro e telas se transformaram em arte e que, por sua vez mantiveram a Casa da Rua de Santa Margarida. Um “ninho” que te acolheu a ti, a ti a ti e a ti…E todas aquelas que por lá passaram até ao ano de 2009…E porque vos ver crescer me torna imensamente feliz…Porque é necessário alargar horizontes…

Em 1938, Portalegre recebeu-nos nos seus belos e luminosos claustros do convento de Santa Clara, neles existiram proteção, educação e formação. Minhas filhas… Muitos continuam a achar que todo este trabalho é inútil, que é um tempo perdido porque, no primeiro momento, não conseguem ver os frutos…Mas há que lembrar que o nosso Criador mostra-nos na Natureza o tempo de cada ciclo, que tem que ser respeitado e só assim uma semente será fruto. E muitas vezes uma semente tem que cair para criar raiz, aquilo que está ao nosso alcance é sermos boa terra para a semente ser bem-sucedida. E cuidar dela. O mundo necessita de todos e daqueles que arriscam ser diferentes. Necessita, sobretudo, de gente de mãos erguidas ao alto, de mãos dadas, de mãos cheias, de mãos abertas a aceitar e ir ao encontro do outro e, por isso,

1943 em Évora, te abri a minha porta, uma porta austera com paredes de pedra fria e sombria, mas com todo o meu coração quente para te receber e estar contigo…A ti que te acolhi, te cuidei, te eduquei, que te ensinei, mas com quem também muito aprendi, tu que cresceste comigo, que nos adaptámos aos tempos sem que o meu amor por ti se alterasse, cuidando de ti como uma árvore que foi crescendo e ramificado, que nem tu própria te tenhas dado conta nos primeiros momentos…Sei que estas paredes, o toque do sino, os ruídos das portas, das máquinas de tecer e de costura, te fazem lembrar o AMOR que partilhei CONTIGO…Existem momentos da nossa vida, que só damos valor quando passam, tu sabes o que digo…Pois através destes corredores que sempre te pareceram velhos, gastos e frios, eu te embalei, te confortei, te protegi, a Ti e aos Teus…Sei que nem sempre o fiz da melhor forma, nem tudo foi perfeito, os santos não nasceram santos foram como tu e eu, assim como uma religiosa não se faz num dia…todos os dias aprende um pouco mais, ficando assim mais perto de ti e de Deus. A minha porta esteve sempre aberta para ti, para ti, para ti… e como atrás de ti veio mais uma e mais uma, com histórias tão semelhantes e tão diferentes da tua, histórias que me foram mostrando que existiam outras portas para abrir… Então em

1995 nasceu um Abrigo para ti Mulher, que vives com medo ou que quase não vives, porque te calaram, te humilharam, te espancaram por fora e por dentro. Espero que, nesta casa, tenhas conseguido sentir novamente quem és: Mulher capaz, livre e ponta para uma vida refeita… Évora, quase 70 anos de portas abertas. A mais antiga, o Convento do Calvário, entregue em 2006. Com esta mudança surgiu mesmo que por pouco tempo um lar de “princesas” uma casa cor-de-rosa e verde, verde de esperança de uma vida com escolhas diferentes, cor-de-rosa dos mimos e carinhos que eu sei que sentiste, um teto pensado e criado só para ti, porque tu és especial. E em 2008 foste fazendo grandes e pequenas conquistas, que te foi permitindo Criar Asas e Voar e mesmo quando te encontras cansada e te sentes perdida no voo, sabes que continuo a estar contigo…Na cidade que tem cheiro de flores e de mar, tem sido também, testemunho da minha presença.

1962 foi o ano em que acolhi jovens estudantes e trabalhadoras na sua maioria vindas das Ilhas da Madeira e dos Açores, que longe das suas casas, procuram algum conforto, num ambiente sereno e familiar. Três anos depois a morada mudou e apesar dos bons momentos que se passaram em tradições estudantis, em partilha de vida cristã, em formação e nas amizades que se ganharam para a vida, estando contigo quando te formaste, enquanto pessoa e profissional, mesmo assim não pude deixar de passar indiferente ao que se passava lá fora…

1965, mais do que uma mudança de casa, existiu ainda uma implicação, contigo jovem mãe que necessitaste de apoio para iniciares uma nova vida com os teus filhos. Lisboa foi testemunho do quanto estive atenta a ti, mulher, do quanto fui estando desperta para as tuas necessidades e problemas. Mais uma vez vos recordo que por qualquer uma de vós, eu daria a minha vida. Então continuei…

1966-1967 Adabeja com acolhimento de adolescentes em alto risco.

1978-1989 São José (Braga) – Acolhimento a mães solteiras e seus filhos. Com todas estas experiências o nome Adoradoras foi-se fazendo ouvir e mesmo através de outras Instituições consegui estar contigo…Lisboa

1981 Casa de Santo António, 20 Anos a cuidar de ti mãe pequena, que mal tiveste tempo de brincar, que tiveste de crescer à pressa, substituir as tuas bonecas de trapo e inertes, pelos filhos do teu ventre aos quais tiveste que aprender a aconchegar os lençóis, a reconhecer o choro, a limpar as suas lágrimas e a confortar as vossas mágoas, numa reconciliação contigo e com os outros. Ser mãe não se ensina, mas tudo se torna mais simples quando nos deixamos guiar pela pedagogia do Amor, com as normas vindas da instituição do coração, cheias de doses de paciência e suavidade. E foi assim que tentei ser para ti, com este amor de mãe para que usufruísses de todos os cuidados e da ternura que te dediquei. Ainda em Lisboa a minha inquietação foi a motivação de em 1987 até 2008, na Freguesia dos Olivais te ter dado o meu nome e carisma ao cuidar de vós, Jovens. Lar Madre Sacramento uma inserção integrada, para te retirar da miséria que te arrastou para a marginalização, para a fragilidade e necessidades em que te encontravas, este espaço rodeou-te de um clima de paz, de alegria sã, levando-te muitas vazes ao colo, para que encontrasses de novo um sentido para a vida, que tomasses consciência da tua dignidade enquanto pessoa, capaz de sentires confiança no futuro. O nosso trabalho não é para ser apreciado pelo mundo nem para alcançar a glória de vãos elogios. Trabalhamos muitas vezes no silêncio, por ti, por ti, e por todas vós especialmente a ti que te encontro na rua, tentando passar invisível aos olhos dos outros, porque só tu mulher me interessas e me inquietas. Tu mulher que te vendes, sem saber afinal o quanto vales…A ti mulher convido a deixar a vida que levas.

1990 Assinala o ano do início da minha presença em Coimbra, uma afirmação forte das fontes do carisma, amar-te a ti, mulher, que ninguém te quer. É fácil gostar da inocência de uma criança, mas de ti, mulher explorada, que vives na solidão, no abandono e na indiferença, é difícil amar-te e acreditar na tua capacidade de recuperação, mulher escravizada. Mas a ti, eu me entrego, numa partilha gratuita e a Casa Nossa Senhora da Paz, foi testemunho da minha entrega a ti Mulher. Hoje e desde 2009, continuo “Girando” pelas ruas de Coimbra, levo comigo a esperança das noites para estar contigo…Busco-te incessantemente para te encontrar e te convidar a quebrar as amarras às quais te encontras aprisionada. Eu te encontro em cada esquina, no local mais escuro, no local onde te prometeram vida fácil, mas que depressa te confrontas-te com uma dura realidade e viste que não é um caminho. Mas dia após dia, noite após noite, continuo a acreditar que te podes erguer. Estou contigo ERGUE-TE MULHER… Os tempos mudam e com eles surgem novos rumos…

1991, foi a vez da Caritas Diocesana de Évora, nos lançar um novo desafio…António López Aragón foi o nome inspirador para a nova resposta social abraçada pelas irmãs Adoradoras em Bombel (Vendas Novas), uma comunidade terapêutica na sua génese, com acolhimento misto e que posteriormente se vem a tornar numa comunidade terapêutica, para te acolher a ti, mulher toxicodependente. Tu que nos chegaste morta sem te dares conta, apenas te restava um corpo com uma alma adormecida. Uma alma que há muito a fizeste dormente, na busca de um prazer ilusório ou apenas para não sentires outras dores reais do teu espírito, vivendo a fantasia do faz de conta…Tu foste substituindo os teus verdadeiros amigos, os teus pais, os teus companheiros, muitas vezes até os teus filhos e aos poucos abandonando-te a ti própria…Nesta casa te abri o portão do meu coração… Eu sei como foi difícil, doloroso… quantas vezes não pensaste desistir, pular os muros para poderes ir ter com ela…Mas tu sabias que ali, eu estava contigo, te aceitava e te compreendia, conseguia até perceber quando só de falar dela ou de pensares nela, tu começavas a tremer como dela ainda necessitasses para respirar…Foi um caminho duro onde tiveste que te agarrar à vida e vivê-la um dia de cada vez. Penso que foste ganhando a serenidade para aceitares o que não podes modificar, coragem para modificares o que podes, bem como sabedoria para poderes reconhecer qual diferença. Eu te amo e amei assim e por isso estive contigo até ao ano de

2005 nesta casa. Mas todos os dias continuo contigo, quando tu repetes cada dia que só por hoje vale a pena…De regresso a Lisboa nestas minhas recordações, a Casa da Graça, que graça ela tinha com os sorrisos dos teu filhos…SAUDADES…Meninas dos meus olhos…Ditou o fado da Mouraria que em 1993 te receberia em meus braços. Aqui o destino nos amarrou até 2006.Há Gente que fica na história, da história da gente, as emoções que tive contigo na procura de um fado diferente, ditaram momentos de uma nova esperança para a tua vida, para a tua reinserção jovem mãe. Aqui te acompanhei na luta diária da conquista pelo teu lugar ao sol, aqui vi crescer os teus filhos e estive a teu lado enquanto foste construindo o teu chão e alcançando um pouco de céu, o resultado do teu esforço, do teu trabalho fez a vida continuar…Mesmo que não me vejas, eu estou perto, vivo através de ti e estou contigo…Sabes o quanto inventei e reinventei, para poder estar contigo, a minha paixão por ti e por Cristo triunfou em mim, para me dar a ti, mulher marginalizada. Desde 1998, neste espaço pequenino te recebo, para que daqui possas sair mais forte e capaz para uma mudança de vida, vislumbro sempre um ponto de luz porque já vi e acredito que mesmo, no ultimo momento algo nasce em ti e, por isso, te dou o meu coração e, por isso, também saio para a rua e te procuro, nem que seja para te dar um sorriso, que te faz sentir pessoa, ou te dizer: Olá Maria estás boa? E tu em simples palavras me dizes: Estou aqui…E eu te respondo: Estou contigo… 2002, foi a hora de te dizer um até breve… Universitária Terminadas as obras, os meus olhos se abriram para outros horizontes…

2004 Ficou assinalado com o desabrochar da comunidade de inserção “Lar Jorbalan”.Mais do que um teto esta tua casa, tem cheiro a família, um cheiro de que há muito não te recordavas ou que nem reconheces…Um cheiro a bolo acabado de fazer…Um cheiro a abraço acabado de dar…Um cheiro a dança que paira no ar…Um cheiro a liberdade de amarMas também um cheiro que pede que vivas na verdade…Tu és única, tens o teu tempo, as tuas escolhas…Tu sabes que estou ao teu lado, que muitas vezes te tenho que empurrar e outras que te puxar, mas que as escolhas são tuas e sabes também, que não posso querer mais do que tu.Vai, segue em frente, não há problema se errares, maior problema é nada tentares, quando sentires medo dá-me a tua mão e sente o nosso amor…Quando sabemos bem para onde queremos ir, o mundo afasta-se para nos deixar passar. Sabes que continuarei contigo. E porque quero continuar a estar contigo em 2009 fui ao teu encontro além-mar. Cabo Verde a mais recente Fundação, a aproximação a ti, mulher o lançamento de uma nova semente para que outras possam partilhar o alegre desafio de estar contigo e sentir a paz de se reencontrarem em Ti. Este é o Amor que eterniza a minha, a tua, a nossa história…Somos todos Um! O meu amor continua a tocar os vossos corações através das marias, das Cândidas, as Augustas, as Lurdes, as Anas, as Menas, as Custódias, as Rosas, as Idalinas, as Sandras, as Lourdinas, as Susanas, sem falar das Carmens e das Elisas,

ESTAMOS CONTIGO…